“Ambígua livraria” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovítera, o contador de histórias. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Ambígua livraria”, eis mais um texto de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

“Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar.” (Rubem Alves)

Confira:

Frequentar bibliotecas e livrarias lembra a entrada em santuários sagrados, onde cada livro repousa como um relicário de sabedoria. São templos da cultura, espaços silenciosos capazes de oferecer as chaves para compreender o mundo e, sobretudo, a nós mesmos. Ali, o tempo ganha outra dimensão, e o simples ato de folhear páginas vira uma viagem pessoal e infinita.

Ler vai muito além de decifrar palavras: representa o exercício de enxergar além do visível, descobrir novas paisagens e conhecer os tutanos da existência. A cada linha, abre-se uma janela para universos desconhecidos, onde o real e o imaginário se entrelaçam, enquanto o ordinário mergulha em oceanos de mistério e beleza.

Pois bem. Nem faz tanto tempo assim. Ao comentar a presença de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, na seção “Pets” de uma famosa livraria da cidade, um amigo respondeu, acrescentando: “Ora, eu sei! Foi lá que achei A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, na seção ‘Mundo Fitness’; O Vermelho e o Negro, de Stendhal, em ‘Livros para Colorir’; O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, em ‘Autoajuda’; A Divina Comédia, de Dante Alighieri, em ‘Piadas’ e 1984, também de Orwell, em ‘Sudoku’. Pelo visto, as variadas seções da livraria recebem um cuidado muito especial!”

Resolvi, então, visitar a tal livraria para conferir. Vejam só o que encontrei: A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, em “Agronegócio” ; A Vida de Pi, de Yann Martel, em “Matemática”; Apologia de Sócrates, de Platão, em “Esportes – Futebol”; As Asas da Pomba, de Henry James, em “Ficção Erótica”; O Banquete, de Platão, em “Gastronomia”; O Caráter de Cristo em Nós, do Pr. Almeida, em “Esportes – Lutas Marciais” (leram Karatê!); O Labirinto Perdido, de Kate Mosse, em “Artesanato” ; O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, em “LGBTQIA+”; Os Miseráveis, de Victor Hugo, em “Economia”; Os Pilares da Terra, de Ken Follett, em “Engenharia”; e Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, em “Entomologia” (leram Mosquiteiros). É… tem jeito não…

Saí da livraria com um sorriso amarelo, matutando sobre o quanto se pode avançar na arte de não ler. Não por falta de livros, todos ali, ao alcance das mãos. O problema residia no sentido de cada obra, perdido entre estantes mal compreendidas, talvez mal-amadas. O antigo templo da cultura virava*, aos poucos, num labirinto de interpretações tortas e descuidadas. Afinal, somente quem lê com a alma descobre, até no lugar mais improvável, um universo inteiro à espera de um leitor.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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