“Uma boa amizade está amparada em códigos de olhares, palavras, lembranças, gestos, vivências…”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Dia desses esqueci de dar os parabéns para uma amiga de décadas. Passei a semana planejando enviar uma mensagem de boas energias, mas, no dia mesmo, não lembrei. Pensei em fazer contato dois dias depois e, mais uma vez, o tempo consumiu a vontade.
Na mesma semana nos encontramos. A primeira coisa que fiz foi pedir desculpas por não ter telefonado, nem enviado mensagem. Na mesma hora, ela disse que uma constatação trazida pela maturidade era a de não cobrar de qualquer amigo este tipo de ação. Só cada um sabia o que estava vivendo.
Ainda assim, talvez mais para desabafar e também para me justificar interiormente, contei das minhas preocupações com a saúde de um familiar. Ela e o companheiro, amigo ainda há mais tempo, apenas diziam que o importante é o que cada um sabia sentir diante desta amizade tão longa, sincera, acolhedora de alegrias e silêncios.
Não gosto de esquecer aniversários, renegar convites de amigos ou deixar uma boa amizade perdida entre as agitações do cotidiano. Também não pretendo usar esta resposta acolhedora da amiga para respaldar possíveis deslembranças. Mas a perspectiva de não cobrança, de respeito ao que cada um está vivendo, o não pedir prestação de contas de ações numa amizade são realmente confortantes.
Uma boa amizade está amparada em códigos de olhares, palavras, lembranças, gestos, vivências… Questões que, se observadas por ângulos do afeto, dizem muito mais do que um dia, uma hora, um evento no calendário das simbologias práticas. Calendários falam mais de gestão de processos da amizade; enquanto afeto trata de sintonia de almas.
Quanto mais vivo, menos quero cobrar ou ser cobrada nas amizades. Melhor mesmo é estar com o outro, e conosco, no afeto.
Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora