“Como trabalho com pesquisa qualitativa e com escrita de textos, a escuta é meu instrumento, lado a lado com o raciocínio, a caneta, o bloco e, finalmente, o computador”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório
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Dizia a Maria Clara, em tempos idos, que viajar é o melhor estado de se estar viva. Não sei se o melhor estado, não gosto de competições. Certamente as viagens são momentos bons, mergulhos em desconhecidos mundos. Ou conhecidos à distância, alcançados após anos de planos. Feliz quem tem o dom e a vontade de ousar sonhar. Quem nunca desiste de tal. A música fala de alguém que te faz sonhar, sem dormir. Esse é o amor do qual não se foge, porque dele jamais se tem medo.
O fato é que nos últimos anos só tenho conseguido viajar, a trabalho. Viagens incríveis, não faltam aventuras, não raras vezes sobram perigos. Conheço nova gente, paisagens revelam-se ao meu repertório, longe de estar saciado. Como trabalho com pesquisa qualitativa e com escrita de textos, a escuta é meu instrumento, lado a lado com o raciocínio, a caneta, o bloco e, finalmente, o computador. Escuto pessoas de verdade, inscritas nos mais variados territórios. De Bom Jesus do Norte, no Piauí, a São Paulo capital. De Paranatinga, Mato Grosso, ao Rio de Janeiro.
Sou uma espécie de mambembe da sociologia. Trilho estradas à cata de ouvir as humanas vivências. Como trabalho muito, menos do que preciso, mais do que mereço, não sobra espaço financeiro e cronológico para viagens de pautas mais lúdicas, aquelas sem a hora marcada da obrigação, que se você tiver sabedoria permitem as visitas do inesperado, as surpresas escondidas feito crianças traquinas. Contudo, estou a postos para pegar o barco a qualquer momento que se proporcione. Se não dá fisicamente, vou de TV, de internet, de livros, de amizades.
Explico. Viajo demais de carona com os relatos de duas amigas que o fazem todos os anos, mais que uma vez por ano. Enviam-me mensagens durante e escrevem sobre, à chegada. Pelos olhos delas, torno os meus olhos férteis e vou. Com elas já estive no Irá, no Himalaia, no Marrocos das mulheres, vi a Aurora Boreal, os picos nevados da Nigéria, a ponta sul da América do Sul. Antártida, Islândia, Tailândia, Amazônia, Caribe. Às vezes até me confundo, se fui ou não, de tão intensas são as contações que comigo compartilham.
Mês passado estive na Coréia do Sul. Neste novembro passo uns dias no Uzbequistão. É isso. Não há amor com medo. Não há existência plena sem a amizade que chega junto. Com as mãos cheias de pão, repletas de rosas.
Tuty Osório
Jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS. Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais