“Belchior 80 anos: assim na terra como no céu” – Por Alberto Perdigão

Eterno Belchior e Alberto Perdigão.

Com o título “Belchior 80 anos: assim na terra como no céu”, eis artigo de Alberto Perdigão, jornalista, pesquisador e autor do livro “Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel”.

Confira:

O ano de 1946 foi o quarto seguido de chuvas abaixo da média no Ceará. O quadro era de estiagem no estado. Outubro já chegava ao seu final, e o volume de chuva do mês, em Sobral, não passava de seis milímetros.

A temperatura chegava aos 35 graus e transformava a cidade numa estufa. Quem já esteve na Princesa do Norte nos meses do B-R-Ó BRÓ sabe do que estou falando, já sentiu o reinado da quentura nas maçanetas e torneiras, redes e lençóis.

Eu estive lá, neste outubro de 2026, 80 anos depois do nascimento do filho ilustre da cidade, o cantor e compositor Antonio Carlos Belchior (sem acento e com apenas um sobrenome, como no cartório).

Às 6 da tarde, hora em que ele nasceu, fazia 30 graus com sensação de 32. Um vento forte espalhava o mormaço da tarde noite adentro, por ruas e calçadas, exatamente como naquele sábado, 26 de outubro de 1946.

Na rua Santo Antônio, número 50 (hoje, Padre Fialho, 858), do quarto da frente da casa do seu Otávio, ecoou o choro de um bebê, o terceiro da Dolores, de 25 anos, 16 anos mais jovem que o marido. Para a parteira, Mariinha Paiva, era só mais um sobralense na lista dos 5.941 partos que realizou na carreira, de 1926 a 1970.

“É um menino”, anunciou, sem imaginar que começava ali a história de um escorpiano excêntrico que se transformaria em um artista excepcional. A folhinha mostrava que o dia era de Santo Evaristo. Pela janela se podia ver a lua crescente naquele céu sem nuvens.

O céu – isso não se via – desenhava o que a astrologia chama de stellium, a coincidência de três ou mais astros do sistema solar numa mesma casa zodiacal. O Sol, a Lua, Mercúrio, Marte e Júpiter estavam em escorpião, o “signo mais intenso, magnético e transformador do zodíaco”, segundo a inteligência artificial.

A IA também me diz – porque não entendo disso – que a combinação “cria uma personalidade de extrema profundidade emocional, mente estratégica, poder magnético e uma força de vontade inabalável”.

E eu traduzo livremente: alguém que vê poesia em tudo, que interpreta a realidade de forma complexa, atraente e apaixonante no que faz e que segue a vida com decisão e persistência. Será que bate com o que Belchior foi e viveu?

*Alberto Perdigão

Jornalista, pesquisador e autor do livro “Belchior: a construção de um mito na literatura de cordel”.

@falaperdigao

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