“Canalhice” – Por Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque é escritor e Mestre em Ciência Política

“A canalhice do bolsofascismo expõe a corrosão ética da política e ameaça os fundamentos da democracia brasileira”, aponta o cientista político Alexandre Aragão de Albuquerque

Confira:

Os recentes vazamentos do caso Bolsomaster, das relações secretas e espúrias entre o senador Flávio Bolsonaro (O Zero Um), sua família e o banqueiro Daniel Vorcaro, da mesma forma como ocorreu à época da Operação Lava Jato, então capitaneada por Sérgio Moro, com amplo apoio logístico da Rede Globo, que induziu milhares de brasileiros e brasileiras a idiotamente eleger o então juiz falsário como um paladino midiático, demonstram claramente que não se trata de desvio de conduta individual ou mais um caso de fisiologismo de balcão. Trata-se de uma expressão acabada de uma engrenagem estrutural (mafiosa), desenvolvida pelo bolsofascismo, de submeter o Estado e a soberania nacional à rapina da extrema-direita brasileira.

Para ajudar a obter uma maior compreensão da natureza íntima desses últimos acontecimentos políticos e econômicos, resolvemos recorrer a uma clássica advertência do filósofo espanhol do século XX, José Ortega y Gasset, quando desenvolve seu pensamento sobre o tema da canalhice, em seu clássico “A Rebelião das Massas”.

Para o filósofo, o acanalhamento não é outra coisa senão a aceitação de uma irregularidade como estado habitual e constituído; de algo indevido que, apesar de incorreto, continua sendo aceito. Por não ser possível converter em sã normalidade o que é criminoso e anormal em sua essência, o canalha opta por ele se adaptar ao indevido, fazendo-se completamente homogêneo ao crime ou irregularidade que carrega, para favorecê-lo em suas negociatas.

Sobre a canalhice é aplicado integralmente o adágio popular: “Uma mentira gera outras cem”. O canalha é, portanto, um mentiroso contumaz. Finge frivolamente dedicar-se a ocupações falsas, que nada impõem de íntimo e sincero. Perde-se em si mesmo, por caminhar voltado apenas para si com sua vida vazia, sem projeto coletivo por construir.

Uma sociedade cujo Estado é fraudulento, como ocorreu nos quatro anos em que o bolsofascismo ocupou o Poder Executivo Federal (2019-2022), não pode ter o vigor moral necessário para a difícil tarefa de se sustentar na história com dignidade. O desfecho degradante é amplamente conhecido: um processo contínuo de tentativa de golpe de estado, com episódios dramáticos em dezembro de 2022, que desaguou desesperadamente no fatídico 8 de janeiro de 2023.

O canalha, segundo Ortega y Gasset, não é definido pela condição econômica, mas por uma atitude espiritual. Trata-se daquele que transforma sua própria mediocridade em critério universal. Incapaz de autocrítica, converte a vulgaridade em valor político. A canalhice contemporânea reside não apenas na corrução material, mas na exibição orgulhosa da indigência moral.

O bolsofascismo elevou a canalhice à condição de protagonismo nacional. O culto à ignorância, ao negacionismo; a celebração da grosseria, a exaltação do oportunismo e a ridicularização da ética democrática tornaram-se elementos centrais de sua estética política. Quando personagens públicos, como no caso de Flávio Zero Um, envolvidos em suspeitas graves, continuam se apresentando e sendo defendidos por seus pares como paladinos da honestidade, o que se vê é o triunfo da canalhice e dos canalhas, descrito por Ortega y Gasset: “o canalha é incapaz de experimentar a vergonha”. Literalmente, um sem-vergonha!

Com o bolsofascismo, a canalhice possui uma característica singular: ela não busca mais ocultar-se. Diferentemente de tempos passados, nos quais antigas oligarquias preservavam certo pudor institucional, a extrema-direita brasileira (e internacional, como bem se observa nos EUA, de Donald Trump, e na Hungria, de Viktor Orbán) converte a própria indecência em espetáculo. O cinismo deixa de ser acidente para tornar-se linguagem política. A mentira repetida incessantemente não visa convencer racionalmente, mas destruir a própria possibilidade de verdade política.

A relação intrínseca entre expoentes do bolsofascismo e operadores financeiros ligados ao Banco Master expõe exatamente esta engrenagem. Enquanto o discurso público invoca patriotismo, moralidade, religiosidade e combate à corrução, no escurinho dos bastidores opera-se o forte tráfico de influência, relações escusas e criminosas, proteção mútua, utilização privada das estruturas e bem público.

Quando a mentira sistemática se torna prática cotidiana do poder, como é exatamente na práxis bolsofascista, a ideia de bem comum, tão cara para a política, começa a se dissolver. O resultado é uma sociedade anestesiada moralmente, iludida midiaticamente, incapaz de distinguir decência de canalhice.

O caso recente, envolvendo Flávio Zero Um e suas conexões obscuras, não deve ser lido apenas como um episódio policial, que precisa ser apurado até o fim com os culpados punidos exemplarmente. Trata-se também de um sintoma de uma crise mais ampla da democracia brasileira, aprofundada desde 2014 com a Lava Jato, ferramenta estratégica fundamental para injetar o vírus do bolsofascismo na política nacional, na qual frações da classe dominante brasileira passaram a considerar a ética um obstáculo descartável.

Mas o que é a ética?

Emmanuel Lévinas (1906-1995), filósofo francês da alteridade, afirma que a ética nasce da responsabilidade infinita diante do Outro. O rosto do outro ser humano impõe um limite absoluto ao egoísmo e à instrumentalização. A verdadeira humanidade começa quando o “eu” reconhece que não pode reduzir o “outro” a objeto de manipulação e exploração.

Por sua vez, o filósofo brasileiro Manfredo Araújo de Oliveira insiste que a ética possui uma dimensão ontológica e comunitária. Não há liberdade verdadeira fora da responsabilidade histórica coletiva. Uma sociedade fundada exclusivamente no individualismo competitivo e na busca predatória do lucro dissolve as bases da própria vida democrática.

O bolsofascismo estrutura-se precisamente sobre a negação radical dessa alteridade. O outro – o empobrecido, o indígena, o negro, o cientista, o artista, o jornalista, a mulher, o intelectual, o opositor político – é convertido em inimigo a ser humilhado ou eliminado simbolicamente. Para os canalhas bolsofascistas, a política deixa de ser o espaço de coexistência ética para tonar-se o ambiente do ódio alimentador da guerra permanente contra as diferenças.

Como afirmava Max Horkheimer, teórico da Escola de Frankfurt, sem ética a política se transforma inevitavelmente em barbárie. A canalhice, descrita por Ortega y Gasset, encarnada na extrema-direita brasileira, ameaça destruir os fundamentos civilizatórios da convivência democrática. Combater esse mal exige mais o que indignação episódica. Exige reconstruir e apontar para uma nova cultura política fundada na verdade, na responsabilidade histórica e no respeito à dignidade e ao direito do Outro.

Alexandre Aragão de Albuquerque
Escritor e Mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual do Ceará (UECE)

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