Com o título “Choruminho: quando o choro devolve a praça à cidade”, eis artigo de Marta Pinheiro, poeta, produtora cultural e curadora literária.
Confira:
Nesta semana, visitei o projeto Choruminho, na Praça Clóvis Beviláqua, conhecida popularmente como Praça da Bandeira, e encontrei uma dessas delicadezas que às vezes passam despercebidas, mas dizem muito sobre uma cidade.
A banca de revistas O Barão, uma das poucas que ainda resistem ao tempo, virou ponto de encontro. Em frente à Casa do Barão de Camocim e ao lado da Faculdade de Direito, uma praça que por tanto tempo pareceu esquecida começa a ganhar outra vida.
Há uma banca, um som, mesas e cadeiras de madeira. Há músicos chegando com seus instrumentos e pessoas trazendo de casa suas próprias cadeiras para sentar e ouvir. Quando o choro começa, a praça muda de feição.
O Choruminho acontece de forma independente. Não há grandes estruturas por trás da roda. Há quem faz, quem chega, quem escuta e quem acredita. Durante o encontro, um QR Code fica disponível para quem quiser e puder contribuir. É dessa colaboração que saem parte das despesas com a energia da banquinha e o deslocamento dos músicos que chegam para ministrar as oficinas gratuitas de pandeiro, bandolim, violão e outros instrumentos.
Gosto dessa pequena engrenagem: quem toca, quem ensina, quem aprende, quem escuta e quem contribui acaba fazendo parte da mesma roda. Cada um oferece um pouco e, desse pouco, alguma coisa maior acontece.
E a música não fica somente nas terças. Às sextas-feiras, vêm as Sextas do Samba. Aos domingos, em algumas ocasiões, o grupo deixa a praça e se junta à tradicional roda de samba do Zé Bezerra. A música vai encontrando outros caminhos, outros encontros, outras memórias.
Uma das formas mais bonitas de fazer cultura é quando ela nasce do desejo de estar junto, sem depender de grandes estruturas para existir. Uma praça, alguns instrumentos, cadeiras trazidas de casa e pessoas que decidem estar ali.
A música acende lugares. Devolve movimento ao que parecia adormecido. Cria memória onde antes havia apenas passagem e passantes.
Que o Choruminho tenha vida longa. Que suas rodas continuem crescendo, que suas oficinas despertem novos músicos e que aquela praça siga sendo ocupada — pelo choro, pelo samba e, sobretudo, pela presença das pessoas.
*Marta Pinheiro
Produtora cultural e curadora literária. É graduada em Marketing, pós-graduada em Gestão Cultural e graduanda em Cultura Popular Brasileira pela Universidade Regional do Cariri (URCA). Integra a equipe da Biblioteca Pública Estadual do Ceará.