“Moro em frente a uma praça que deve ter parte das suas árvores nativas removidas para que uma das estações do metrô de Fortaleza venha a ter o seu nome”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Moro em frente a uma praça de vida intensa. Manhãs e noites formigando gente: crianças, casais, cachorros de todos os tamanhos, de coleiras e roupas coloridas, idosos com suas bengalas e passos de reflexão, pipoqueiros, vendedores de sanduíche grego, skatistas, ciclistas, caminhantes, artistas que trazem animais representados em gesso para as crianças pintarem, central de venda de artesanato.
Moro em frente a uma praça que, se nada for feito, vai passar por um longo estado de sítio para ser mexida desde as suas profundezas: dois anos e meio de acordo com as notícias na imprensa, e bem mais quando a sábia memória popular contabiliza o tradicional atraso nas grandes obras do metrô em Fortaleza.
Moro em frente a uma praça que deve ter parte das suas árvores nativas removidas para que uma das estações do metrô de Fortaleza venha a ter o seu nome. Na ausência da vegetação, em breve o sol vai reinar onde atualmente a sombra ameniza seus efeitos.
Moro em frente a uma praça que poderia ser salva caso o Governo optasse por fazer a estação do metrô, por exemplo, numa casa abandonada (talvez patrimônio de uma das forças armadas) na esquina da rua Monsenhor Bruno com a avenida Santos Dumont. Ou mesmo em qualquer outro imóvel a ser desapropriado ao longo do percurso do metrô.
Moro em frente a uma praça que já foi jardim e quintal de um castelo. Cheguei a vê-lo, já abandonado. Anos depois, foi demolido para virar um hipermercado que nunca foi construído. Agora outra ameaça alcança o espaço: virar canteiro de obras, ser sitiado por dois anos e meio, e ver, silenciado por este tempo inteiro, o formigueiro – de seres humanos, animais e plantas – que ali faz seu cotidiano.
Moro em frente a uma praça, Luíza Távora, que pede socorro.
Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora