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“Em defesa de Zuleica Pontes Machado”

Nicolau Araújo é jornalista

“Tamanha foi a minha surpresa ao avistar a merendeira da escola municipal de Paty do Alferes, a 119 quilômetros da capital fluminense, nas fotos daquele 8 de janeiro. Mas ali estava Zuleica, uma mulher preta e pobre. A merendeira de Paty do Alferes era o contraditório de tudo que coloquei contra a extrema direita: a defesa da supremacia branca, do machismo e da elite financeira”, aponta em artigo o jornalista Nicolau Araújo. Confira:

Certa vez, ouvi de um amigo, juiz federal, que “a justiça é feita por meio do bom-senso, mas ajuda se tiver algum conhecimento jurídico”.

É com essa prerrogativa que apelo ao Supremo Tribunal Federal em favor de Zuleica Pontes Machado, presa durante os atos golpistas de 8 de janeiro.

Não, não conheço Zuleica, tampouco um dia tenha essa pretensão. Mas, em mais de 30 anos como jornalista, encontrei algumas “zuleicas”, principalmente quando atuei por mais de 10 anos no cumprimento diário de pautas policiais, quando a miséria da população se apresenta na sua forma mais perversa.

Antes das eleições de outubro de 2022, fui incluído em um grupo bolsonarista por engano, ao me confundirem com um policial, que de vez em quando usava o meu número para falar com algumas “autoridades”.

Ao relatar que me deram boas-vindas em seu nome, o amigo policial se desesperou, diante de minha fácil indignação e do gosto pelo contraditório. O amigo me fez prometer silêncio, pela condição apenas de ouvinte e leitor das mensagens. A promessa não durou três dias.

“É o quê, coronel?”, rompi o silêncio, diante de tamanho despropósito com a realidade. Não, a universidade pública não é um espaço somente de maconheiros, comunistas e “viados”. Não, críticos de Bolsonaro não são ladrões e nem apoiam a roubalheira. Não, não há como fraudar as urnas eletrônicas.

Na tentativa de elevar o debate, disse que Bolsonaro não tinha discurso para as classes C, D e E. Quando Bolsonaro falava de emprego, não era um recado para o trabalhador, mas para o empregador, diante da flexibilização de direitos trabalhistas. Que Lula apareceria com dezenas de milhões de votos e que o bolsonarismo não enxergaria, assim como ainda não enxerga a pobreza.

E é nesse ponto que voltamos ao caso de Zuleica.

Tamanha foi a minha surpresa ao avistar a merendeira da escola municipal de Paty do Alferes, a 119 quilômetros da capital fluminense, nas fotos daquele 8 de janeiro. Mas ali estava Zuleica, uma mulher preta e pobre. A merendeira de Paty do Alferes era o contraditório de tudo que coloquei contra a extrema direita: a defesa da supremacia branca, do machismo e da elite financeira.

Busquei fotos e imagens de tudo que estava disponível: UOL, O GLOBO, Folha, Estadão, Correio Brasiliense, Record, SBT, dentre outros. E Zuleica me pareceu única.

Consegui acessar suas redes sociais, atualmente desativadas, e pude compreender o mundo de Zuleica. À exceção do filho, que figurava com ela na foto de capa, todas as outras pessoas eram brancas, não pardas, brancas! O namorado, ou companheiro, era o típico “bolsominion”: muito alvo, careca e fortão. As amigas, todas brancas e bem-vestidas. Um detalhe: as amigas se aglomeravam, enquanto Zuleica era deixada no canto, quase fora de foco.

E Zuleica agora corre o risco de ser condenada a 14 anos ou a 17 anos de prisão pelo fato de tentar se “enturmar”. Se no mundo de Zuleica, os brancos se dão bem… de acordo com eles.

Há alguns meses, a merendeira foi denunciada pela Advocacia-Geral da União para perder o seu emprego na escola municipal de Paty do Alferes, pelo crime contra o Estado Democrático de Direito. Duvido que Zuleica consiga repetir a tipificação do crime ao qual é acusada ou saiba o seu significado, quisera as consequências.

O caso de Zuleica talvez não haja uma absolvição por embasamento jurídico, mas ainda resta o bom-senso…

Nicolau Araújo é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Marketing Político e com passagens pelo O POVO, DN e O Globo, além de assessorias no Senado, Governo do Estado, Prefeitura de Fortaleza, coordenador na Prefeitura de Maracanaú, coordenador na Câmara Municipal de Fortaleza e consultorias parlamentares. Também acumula títulos no xadrez estudantil, universitário e estadual de Rápido

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