Com o título “Feminicídio: o problema não é o amor, é o poder”, eis artigo de Joilson Lima, acadêmico de Psicologia. “Na realidade, o feminicídio costuma começar muito antes, muitas vezes como um controle disfarçado de cuidado ou ciúme tratado como prova de amor. O objetivo é limitar a liberdade da mulher. Aos poucos, isso pode evoluir para humilhação, ameaça e agressão”, expõe o articulista.
Confira:
A pergunta é incômoda, mas há necessidade de ser feita: por que homens ainda matam mulheres no Brasil?
A resposta não está em histórias isoladas nem em um descontrole de momento. Podemos pensar que está em algo mais profundo, que atravessa nossas relações e nossa cultura.
Durante muito tempo, esses crimes foram chamados de passionais. Era comum ouvir que o homem matou por ciúme, por dor, por amar demais. Hoje, essa ideia não se sustenta. O que aparece na maioria dos casos não é amor em excesso, mas dificuldade em aceitar limites, frustrações e o fim do controle sobre a vida da mulher.
Os números ajudam a entender a dimensão do problema. O Brasil registrou mais de 1.500 feminicídios em 2025, mantendo uma média de cerca de quatro mulheres mortas por dia . E há um dado que chama ainda mais atenção: grande parte desses crimes acontece dentro de casa, muitas vezes depois de uma sequência de violências já desveladas. Ou seja, quase nunca é um fato inesperado.
A socióloga Heleieth Saffioti já apontava que a violência contra a mulher está ligada a uma estrutura histórica em que o homem ocupa o lugar de poder. Isso ainda aparece no cotidiano, inclusive no Nordeste brasileiro, onde relações próximas e laços comunitários fortes convivem, muitas vezes, com o silêncio diante de conflitos considerados “problema de casal”.
Na realidade, o feminicídio costuma começar muito antes, muitas vezes como um controle disfarçado de cuidado ou ciúme tratado como prova de amor. O objetivo é limitar a liberdade da mulher. Aos poucos, isso pode evoluir para humilhação, ameaça e agressão.
A historiadora Joan Scott ajuda a entender esse processo ao afirmar que gênero é uma forma de organizar relações de poder. Quando esse poder é questionado, alguns homens não conseguem lidar com a mudança. A violência surge como tentativa de recuperar um lugar que já não se sustenta.
Do ponto de vista psicológico, isso também não acontece do nada. O psicólogo Albert Bandura mostrou que a violência pode ser aprendida e repetida. Quem cresce em ambientes onde a agressão é naturalizada tende a reproduzir esse padrão. Somando-se a isso a dificuldade de lidar com rejeição e perda, temos um cenário mais agravante.
Mas há um ponto que precisa ser dito com clareza: entender não é justificar.
O problema não está apenas em quem comete o crime, mas também na forma como a sociedade reage antes que ele aconteça. Quantas vezes sinais evidentes são ignorados?
Quantas denúncias não avançam? Quantas situações são minimizadas?
No Brasil, o feminicídio não é raro nem imprevisível. Ele é frequente e, muitas vezes, anunciado.
No Nordeste, onde a convivência é próxima e a vida acontece na rua, na calçada, na vizinhança, o silêncio coletivo pesa ainda mais. Porque, quando ninguém intervém, a violência ganha espaço e cresce, alcança proporções devastadoras.
Talvez a pergunta mais importante não seja por que isso acontece.
Talvez seja outra: o que ainda estamos aceitando como normal antes que uma mulher morra?
*Joilson Lima
Acadêmico de Psicologia
Instagram: @pensante.81
*REFERÊNCIAS
SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado e violência. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, 1995.
BANDURA, Albert. A teoria social cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025.
Ministério da Justiça e Segurança Pública. Dados sobre feminicídio no Brasil.