Com o título “Gurgel, Montenegro, as Big Techs e a Soberania Nacional”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “A empresa de João Gurgel poderia ter sido nossa Embraer de quatro rodas. Bastava ele ter nascido “lá acolá”: A Coreia do Sul protegeu ferozmente seu mercado interno, como a Hyundai. O Japão fez o mesmo. A China transformou isso em política de Estado. E até os Estados Unidos subsidiam pesadamente sua indústria tecnológica através do Inflation Reduction Act”, expõe o articulista.
Confira:
Fiz graduação e mestrado em engenharia no século de Alan Turing. Passei por laboratórios, oficinas, máquinas etc. E, curiosamente, nunca fui apresentado a esse tal de João do Amaral Gurgel.
Nunca me contaram sobre sua genialidade criativa, sua trajetória resiliente, sua coragem diante das “big techs” da época, “multinacionais” tratadas com “big reverência” por políticos suspeitos e cidadãos adestrados com o fascínio colonial do “made in lá fora”.
Enquanto estudávamos o balacobaco estrangeiro, esqueceram de nos mostrar um brasileiro que ousou sonhar com engenharia nacional soberana. Um homem que acreditava que o Brasil podia produzir carros próprios, tecnologia própria, soluções próprias … “Décadas antes da Tesla do Elon, Gurgel botou na rua um carro elétrico nacional.
Gurgel ousou desafiar o fatalismo colonial de que “o que presta vem de fora”.
Gastei minha cota semanal de depressão seletiva ao descobrir que até o meu “Ceará de açúcar” também sucumbiu a essa mutreta antinacionalista engendrada por Fernando Collor, parte da elite paulista e das big techs automotivas.
A abertura econômica do Collor foi vendida como modernização. Na prática, significou desmontagem prematura de capacidades nacionais ainda em formação. Uma política que faria inveja até ao nosso Congresso contemporâneo, o mais medíocre de nossa história republicana.
Essa lógica dificilmente resistiria a uma saraivada de Manuel Castells e sua visão da Economia Informacional, na qual o desenvolvimento tecnológico depende de coordenação estatal, capacidade organizacional e estratégia nacional, e não de submissão passiva ao “mercado”.
A empresa de João Gurgel poderia ter sido nossa Embraer de quatro rodas. Bastava ele ter nascido “lá acolá”: A Coreia do Sul protegeu ferozmente seu mercado interno, como a Hyundai. O Japão fez o mesmo. A China transformou isso em política de Estado. E até os Estados Unidos subsidiam pesadamente sua indústria tecnológica através do Inflation Reduction Act.
Infelizmente, parece que o mantra colonial continua: “o que presta vem de fora”.
Decidi que João Gurgel será tema das minhas aulas no IFCE, no curso de eletrotécnica e nas palestras da Caravana LF, que já percorreu dezenas de universidades brasileiras debatendo “Soberania Digital: Colonialismo e Letramento” (maurooliveira.blog).
A saga de Gurgel se torna um fantasma recorrente quando observamos o debate atual sobre IA no Brasil: o debate acadêmico anda mais fraco que caldo de bila e a nossa sociedade numa crise identitária pior que a do Corinthians.
Temos “rebolado no mato” temas essenciais e urgentes como:
• Os impactos da IA Generativa no desemprego;
• a “jumentização” da cognição de nossos jovens;
• a falta de transparência e regulamentação nos datacenters de IA;
• o uso desembestado e colonizativo de plataformas “made in lá fora”;
• semicondutores nacionais tratados quase como delírio exótico.
Recentemente vi um vendedor da Google abrir uma apresentação dizendo que estava ali “para ajudar o Ceará”… e meteu o cacete “ajudando” a Google.
E ele sabia exatamente o terreno onde pisava. Sabia que temos energia limpa abundante e que somos receptivos ao “made in lá fora”. Sabia que frequentemente confundimos submissão tecnológica com modernidade.
E sabia também que, muitas vezes, aceitamos silenciosamente as enrolações, mesmo quando sentimos aquele desconforto corrosivo de estarmos sendo feitos de idiotas úteis, sensação reforçada pelo sorriso leve, protocolar e quase irresponsável de parte da audiência, fascinada diante da tecnologia como meros consumidores encantados.
E aqui surge uma ironia histórica.
Mesmo setores progressistas frequentemente demonstram enorme dificuldade em sustentar políticas estratégicas da Teoria da Economia informacional (TEI), consistentes de valorização da engenharia, da invenção e da criatividade nacional. O que dizer, então, do pensamento conservador que naturaliza a ideia de que tudo que é bom “made in lá fora”?
Ah, quando vamos falar aos nossos jovens sobre brasileiros que enfrentaram Big Techs ao acreditarem que desenvolvimento nasce de projeto nacional, engenharia, obstinação e autoestima coletiva?.
Ah… e se Gurgel tivesse encontrado no Ceará um cearense certo na hora certa: um Casimiro Montenegro Filho, o homem que fundou o CTA, ajudou a criar o ITA e abriu caminho para a Embraer, um revolucionário de “alma na mão”, marcado pela obsessão em construir capacidade tecnológica nacional. Talvez ali surgisse uma convergência histórica capaz de alterar o destino industrial brasileiro.
Ah, tivéssemos a coragem de entender que o capitalismo é claro em suas intenções, que as big techs nada darão se nada exigirmos. Pois …
Nenhuma plataforma abrirá mão espontaneamente de poder.
Nenhuma gigante tecnológica transferirá soberania por benevolência.
Nenhum império digital se moverá por altruísmo.
Ah, tivéssemos coragem de entender que a falta de transparência abre caminho para negociatas, enquanto a ausência de compromisso de nossos políticos mutila a autoestima necessária ao desenvolvimento de uma nação — matando aquela mística rara que sentimos quando a bola toca a rede… na eterna espera pelo hexa.
Coragem para exigir.
Coragem para negociar.
Coragem para proteger.
Coragem para planejar.
Coragem para acreditar.
Ah, tivéssemos coragem!
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.