“Os judeus, espalhados por diferentes países após séculos de diáspora, acumulavam perseguições religiosas, sociais, econômicas e raciais. Em vários momentos de sua longa história, estiveram à beira do extermínio. Ainda assim, sobreviveram”, aponta o coronel RR da PMCE, Plauto de Lima
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A geração nascida no século XX testemunhou alguns dos acontecimentos mais marcantes da história humana. O novo século surgia cercado de expectativas. Afinal, o anterior havia produzido avanços científicos, industriais e tecnológicos tão extraordinários que parecia razoável acreditar que a humanidade caminhava para uma era de prosperidade contínua.
Mas a euforia durou pouco.
Logo na segunda década do século, o mundo mergulhou no horror da Primeira Guerra Mundial. O conflito, iniciado em julho de 1914 e encerrado em novembro de 1918 com o Tratado de Versalhes, envolveu as maiores potências da época e deixou uma estimativa brutal de 15 a 22 milhões de mortos.
Enquanto a Europa ardia, um povo disperso pelo mundo alimentava um antigo sonho: retornar à sua terra ancestral.
Os judeus, espalhados por diferentes países após séculos de diáspora, acumulavam perseguições religiosas, sociais, econômicas e raciais. Em vários momentos de sua longa história, estiveram à beira do extermínio. Ainda assim, sobreviveram.
Durante a Primeira Guerra Mundial, lideranças judaicas aproximaram-se do governo britânico na esperança de obter apoio para o retorno à Judeia histórica. O processo foi marcado por ambiguidades e promessas contraditórias feitas tanto a judeus quanto a árabes da região. Ainda assim, a Declaração Balfour, de 1917, representou um marco importante ao expressar apoio britânico à criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina.
Era uma fresta de esperança aberta em meio às ruínas do mundo.
Mas o pior ainda estava por vir.
A Alemanha jamais aceitou plenamente a derrota de 1918. O ressentimento nacional abriu espaço para a ascensão de Adolf Hitler, um austríaco que transformou frustração econômica, nacionalismo e ódio racial numa máquina de destruição. Como ocorre com muitos regimes totalitários, era necessário criar um inimigo interno. E os judeus foram escolhidos como alvo.
Teve início então um dos capítulos mais sombrios da civilização: o Holocausto.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, o povo judeu estava devastado. Milhões haviam sido assassinados. Famílias foram destruídas. Comunidades inteiras desapareceram. Muitos sobreviventes já não possuíam casas, pátria ou identidade nacional reconhecida. Restava-lhes apenas uma direção: Sião.
O movimento sionista, iniciado ainda no final do século XIX, passou a organizar redes clandestinas para transportar sobreviventes rumo à Palestina. O caso mais emblemático foi o do navio Exodus, que levava cerca de 4.500 refugiados judeus e acabou interceptado pelos britânicos, sendo obrigado a retornar à Europa. A repercussão internacional do episódio gerou enorme comoção e fortaleceu a causa judaica diante do mundo.
Foi então que um brasileiro entrou definitivamente para essa história.
O gaúcho Oswaldo Aranha presidiu a sessão da Assembleia Geral da ONU que aprovou, em 27 de novembro de 1947, a Resolução 181, propondo a partilha da Palestina em dois Estados: um judeu e outro árabe, deixando Jerusalém sob administração internacional.
Depois de quase dois mil anos de dispersão, o sonho do retorno parecia finalmente possível.
Em 14 de maio de 1948, David Ben-Gurion proclamou oficialmente a independência do Estado de Israel, em Tel Aviv, sob forte tensão militar e política, já que os países árabes vizinhos rejeitavam a criação do novo Estado.
Israel nascia cercado por guerras, hostilidade e incertezas. Mas nascia.
Compreender essa trajetória não exige concordância automática com todas as decisões políticas do Estado israelense ao longo de sua história. Exige apenas honestidade intelectual para reconhecer que os conflitos atuais não nasceram ontem, nem cabem em slogans de rede social.
Questões internacionais complexas não podem ser reduzidas a torcidas emocionais, palavras de ordem ou militâncias performáticas. Povos, guerras e tragédias humanas merecem mais profundidade do que discursos instantâneos moldados por algoritmos.
Antes do grito, convém conhecer a história.
Porque há na existência de Israel uma verdade difícil de ignorar: poucos povos atravessaram tantos séculos de perseguição, dispersão e tentativa de aniquilação e, ainda assim, conseguiram retornar, reconstruir-se e permanecer de pé.
Plauto de Lima
Coronel RR da PM e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas