Com o título “José Guimarães e a política que resiste ao tempo”, eis a coluna “Fora sa 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos no Blogdoeliomar. “A ida de José Guimarães para o ministério não é apenas mudança de função. É, de certo modo, o reconhecimento de trajetória que ajudou a sustentar um dos principais projetos políticos do país em toda a sua história recente . E, ao mesmo tempo, sinal de que esse tipo de trajetória — longa, sólida e comprometida — está se tornando cada vez mais rara na política brasileira”, expõe o colunista.
Confira:
A chegada de José Guimarães ao comando do Ministério das Relações Institucionais não é apenas mais uma movimentação administrativa do governo. Trata-se de gesto carregado de simbolismo histórico — para o Ceará, para o Congresso Nacional e, sobretudo, para o próprio Partido dos Trabalhadores.
Poucos personagens da política brasileira contemporânea conseguem sintetizar, em sua trajetória, tantas camadas de construção coletiva quanto Guimarães. Natural de Quixeramobim, vindo de origem humilde, ele percorreu caminho que não foi marcado por atalhos, mas por permanência, lealdade e, sobretudo, capacidade de resistência. Em tempos de carreiras meteóricas e lideranças instantâneas, sua história se ergue como contraponto.
Ao longo de quase cinco décadas de militância, Guimarães não apenas acompanhou o crescimento do PT — ele ajudou a moldá-lo. Esteve presente nas grandes vitórias, como também nas derrotas mais duras, sem jamais abandonar o projeto político que ajudou a construir. Essa constância, rara na política brasileira, é dos traços que o diferenciam de boa parte da geração atual.
Seu discurso de posse refletiu exatamente essa trajetória, que sempre foi a defesa intransigente do diálogo, o compromisso com a democracia e a crença na construção coletiva. Não são apenas palavras protocolares. São valores que atravessam sua vida pública e ajudam a explicar por que se tornou dos principais articuladores políticos do país.
Há ainda elemento simbólico que não pode ser ignorado. Irmão de José Genoino — que alcançou projeção nacional antes dele —, Guimarães trilhou caminho próprio, silencioso e persistente, até ultrapassar o irmão em protagonismo político. Não por acaso, mas por dedicação contínua a um projeto partidário que exigiu disciplina, resiliência e capacidade de adaptação.
Sua ida para o ministério, no entanto, carrega custo político relevante, pois ao assumir o cargo, se afasta da possibilidade de disputar as próximas eleições, justamente no momento em que cumpre seu quinto mandato consecutivo como deputado federal e teria reeleição garantida. É decisão que, mais uma vez, reforça característica central de sua trajetória — o desprendimento pessoal em nome de função maior.
Esse movimento levanta inevitavelmente a pergunta sobre o que virá depois. Em cenário incerto, especialmente se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não for reeleito, o futuro político de Guimarães é uma incógnita. Mas talvez essa seja a menor das questões diante do que sua trajetória já representa.
Porque, ao observar o atual perfil do Congresso Nacional, torna-se evidente que figuras como Guimarães pertencem a geração em extinção — uma “cepa” política formada na militância, forjada no tempo longo, e comprometida com projetos que vão além de ciclos eleitorais, cito aqui por dever de reconhecimento, nesse rol, o ex-senador José Pimentel.
Em ambiente cada vez mais marcado pelo imediatismo, pela volatilidade e pela personalização da política, sua história lembra que há outro caminho possível, que é o da construção paciente, da fidelidade ideológica e da atuação baseada em convicções. A ida de José Guimarães para o ministério não é apenas mudança de função.
É, de certo modo, o reconhecimento de trajetória que ajudou a sustentar um dos principais projetos políticos do país em toda a sua história recente . E, ao mesmo tempo, sinal de que esse tipo de trajetória — longa, sólida e comprometida — está se tornando cada vez mais rara na política brasileira.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 linhas”, do Blogdoeliomar.