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“Linguagens possíveis no complô para o bem” – Por Ana Márcia Diógenes

Ana Márcia Diógenes em mais um lançamento de sua obra. Foto: Divulgação

Com o título “Linguagens possíveis no complô para o bem”, eis a crônica deste domingo de Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora. 

Confira:

Sim, algumas linguagens vão além da fala ou da escrita. Elas se dão pelos olhos, por alguns movimentos que se tornam até mais simbólicos do que o corpo costuma expressar. É algo que as almas que pendem para um entendimento comum poderiam denominar de compreensão, empatia, sintonia. Nesta crônica, vou chamar de complô para o bem.

Certa vez, em um condomínio em que eu morava, havia um síndico muito sisudo. Via problema em tudo. Tratava os funcionários como recrutas em quartel, como se ele fosse um sargento de mal com a vida. Além do gênio forte, o síndico era super conservador, assumidamente de direita. Nas coincidências do encontro dos divergentes, um dos funcionários era desejoso da democracia.

Para não perder o emprego, o funcionário ficava só no hum hum quando o síndico chegava com ares de lobo mau, bradando concepções antidemocráticas. Um dia, quando eu e meu marido passávamos vestidos com a blusa de uma manifestação contra mais uma tragédia política, os olhos dele quase saíram em passeata atrás da gente.

A partir daquele momento, nossa linguagem foi se adaptando. Conhecedores das opções políticas do síndico, para não prejudicarmos o funcionário, quando a gente passava por ele, se comunicava pelas mãos. Um sinal de legal do
polegar dizia para além de “tudo bem!”. Soava como “vamos melhorar ainda mais, né?”. Ele agitava o polegar, com um sorriso que, mesmo sem palavras, dizia algo como “sim, estamos juntos”.

Só nós sabíamos do nosso complô linguístico para desejar e se manifestar por uma sociedade mais democrática para todos e não só para os que têm status. No quartel dos recrutas acossados pelo síndico mau, a nossa linguagem, para
além de criar códigos privados, trouxe a possibilidade de conversar e reforçar crenças, nos formatos possíveis.

*Ana Márcia Diógenes

Jornalista e escritora.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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