Com o título “O fim da escala 6×1 desafia a gestão e valoriza as pessoas”, eis artigo de Wagner Siqueira, presidente do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro. “O desafio brasileiro será construir um modelo que concilie competitividade, continuidade das atividades econômicas, geração de empregos e qualidade de vida. Não se trata de ignorar as dificuldades de adaptação das empresas, mas de reconhecer que a produtividade também depende de processos bem desenhados, tecnologia, liderança e pessoas em boas condições físicas e emocionais”, expõe o articulista.
Confira:
O fim da escala de trabalho 6×1 e a redução gradual da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, são conquistas históricas, resultado de décadas de reivindicações por melhores condições de trabalho, mais tempo para a família, para o descanso, para os estudos e para a vida.
Essa vitória tem um significado especial para mim. Nas décadas de 1980 e 1990, dediquei parte importante da minha trajetória à representação dos trabalhadores, especialmente dos profissionais liberais e dos Administradores. Fui presidente do SINTAERJ – Sindicato dos Administradores do Estado do Rio de Janeiro, e da FENAE – Federação Nacional dos Administradores, além de vice-presidente da CNPL – Confederação Nacional das Profissões Liberais. Naquele período, participei, como representante dos trabalhadores, de negociações que resultaram na assinatura de mais de 40 acordos, convenções e dissídios coletivos com empresas de diferentes setores.
Essa experiência reforçou em mim a convicção de que as relações de trabalho precisam evoluir, acompanhando as transformações da sociedade e buscando um equilíbrio entre os interesses das organizações e a dignidade dos trabalhadores.
Ao longo das décadas, a redução da jornada tornou-se uma das principais reivindicações dos movimentos de trabalhadores. No Brasil, um marco fundamental ocorreu em 1988, quando a Constituição Federal reduziu o limite máximo semanal de 48 para 44 horas. A mudança, à época, também enfrentou preocupações e resistências quanto aos seus efeitos sobre os custos das empresas e a produtividade. Agora, quase quatro décadas depois, voltamos a discutir a organização do tempo de trabalho e a necessidade de conciliar os objetivos das organizações com a qualidade de vida de quem nelas trabalha.
O debate brasileiro também encontra referências importantes em outros países. Na França, a jornada legal de referência para trabalhadores em tempo integral é de 35 horas semanais. Na Alemanha, acordos coletivos frequentemente estabelecem jornadas próximas de 38 horas, enquanto na Itália e no Japão a referência geral é de 40 horas semanais.
Claro que as comparações internacionais devem ser feitas com cuidado. A jornada prevista em lei não é necessariamente igual à média efetivamente trabalhada, e a existência de limites legais não elimina, por si só, horas extras excessivas ou práticas inadequadas em determinadas organizações. Cada país possui sua realidade econômica, social e trabalhista.
O desafio brasileiro será construir um modelo que concilie competitividade, continuidade das atividades econômicas, geração de empregos e qualidade de vida. Não se trata de ignorar as dificuldades de adaptação das empresas, mas de reconhecer que a produtividade também depende de processos bem desenhados, tecnologia, liderança e pessoas em boas condições físicas e emocionais.
*Wagner Siqueira
Presidente do CRA-RJ e do Fórum de Conselhos e Ordens Profissionais do RJ, ex-secretário de Administração da Cidade do Rio de Janeiro, Vogal da Junta Comercial do Rio de Janeiro, membro acadêmico da Academia Brasileira de Ciência da Administração (ABCA) e da Academia Nacional de Economia (ANE), além de ser autor de livros sobre gestão.