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“O Saudosismo do Atraso” – Por Cynthia Albuquerque

Cynthia Albuquerque é secretária dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social de Fortaleza.

Com o título “O Saudosismo do Atraso”, eis artigo de Cynthia Studart Albuquerque, assistente social, doutora em Serviço Social (UFRJ) e secretária de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS) de Fortaleza. “um personagem histórico do pensamento de Ciro praticamente desapareceu: os pobres. Não apenas como categoria social, mas como sujeitos políticos de um projeto de desenvolvimento”, expõe a articulista.

Confira:

Há discursos que impressionam não pelo que dizem, mas pelo não dito. A convenção que lançou Ciro Gomes como candidato ao Governo do Ceará foi um desses casos. Falou-se de segurança pública, facções criminosas, muito do passado, superficialmente do presente e bastante dos adversários. Porém, um personagem histórico do pensamento de Ciro praticamente desapareceu: os pobres. Não apenas como categoria social, mas como sujeitos políticos de um projeto de desenvolvimento.

Essa ausência chama atenção porque não se trata de qualquer trajetória. Ciro construiu sua identidade pública defendendo um projeto nacional de desenvolvimento baseado na reindustrialização, na ciência, na tecnologia, na educação, no planejamento estatal e na soberania nacional. Seu argumento sempre foi o de que o atraso brasileiro não seria superado apenas pelo crescimento econômico, mas pela capacidade do Estado de produzir oportunidades, reduzir desigualdades e integrar os brasileiros ao desenvolvimento.

Na convenção que o lançou candidato ao Governo do Ceará, entretanto, essa agenda praticamente desaparece. O desenvolvimento cede lugar ao discurso da lei e da ordem; a transformação social perde espaço para uma retórica beligerante; a inclusão deixa de ser o farol do projeto, subsumida por uma narrativa predominantemente voltada à segurança pública e ao combate à corrupção. Nada mais bolsonarista, diga-se de passagem.

Enquanto isso, na convenção do PT, afirmou-se outra concepção de futuro para o Ceará: um Estado que cresce porque cuida. O balanço do primeiro governo Elmano e as diretrizes para um novo ciclo sustentam, com dados concretos, que desenvolvimento econômico e justiça social não são agendas concorrentes, mas dimensões inseparáveis de um mesmo projeto.

O PIB cearense registrou crescimento real de 5,87% em 2024, o melhor resultado desde 2010 e acima da média nacional, com projeções igualmente positivas para 2026. Entre 2023 e 2025, foram gerados 393.094 empregos formais — o maior saldo entre os governos analisados pelo IPECE — e a taxa de desemprego caiu para 6,5% em 2025, o menor índice desde 2012. Esses resultados demonstram a força dessa estratégia de desenvolvimento.

Nesse cenário, o rendimento médio real do trabalhador alcançou R$ 2.296 no terceiro trimestre de 2025, representando crescimento real de 11% em relação ao final de 2023. Mas é nos indicadores sociais que esse projeto revela sua essência inclusiva. A renda real dos 10% mais pobres cresceu 40,6% entre 2022 e 2025, mais que o dobro do crescimento registrado entre os 10% mais ricos (15,4%). Esse avanço traduziu-se na redução de 35% da extrema pobreza, com cerca de 453 mil pessoas deixando essa condição, e na queda da taxa de pobreza de 52,6% para 45,8%, retirando aproximadamente 583 mil cearenses dessa realidade.

A insegurança alimentar grave também recuou de forma expressiva, permitindo que cerca de 149 mil pessoas deixassem de conviver com a fome e elevando para 69,5% a proporção de domicílios em situação de segurança alimentar. Somam-se a isso a elevação do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) para 0,773, colocando o Ceará na faixa de alto desenvolvimento humano, e a consolidação de uma estratégia que articula crescimento econômico, geração de empregos, atração de investimentos, infraestrutura, ciência, tecnologia, inovação e transição energética às políticas de proteção social, ao Ceará Sem Fome, ao fortalecimento da agricultura familiar e às ações voltadas às populações mais vulneráveis. Nesse projeto, o desenvolvimento deixa de ser um fim em si mesmo para tornar-se instrumento de ampliação de oportunidades, redução das desigualdades e melhoria concreta da vida das pessoas.

Talvez essa seja a principal questão colocada ao Ceará em 2026. Não se trata apenas de escolher entre candidatos, mas entre projetos de desenvolvimento. O problema do novo discurso de Ciro não é abordar a segurança pública — esse é, sem dúvida, um desafio real e urgente. O que chama atenção é que a pobreza praticamente deixa de aparecer como questão estruturante do desenvolvimento. E, quando os pobres desaparecem do discurso, talvez deixem também de pertencer ao projeto de futuro. Resta, então, uma pergunta inevitável: a pobreza continua sendo compreendida como um desafio econômico, social e civilizatório ou volta, pouco a pouco, a ser tratada apenas como um problema de ordem pública?

No fundo, é essa a escolha que está posta. Enquanto Ciro propõe recuperar um Ceará do passado, o projeto liderado por Elmano e Gabriella propõe construir um Ceará do futuro por meio do desenvolvimento sustentável, da inovação, da geração de oportunidades e da redução das desigualdades.

O Ceará não precisa sentir saudade do passado. Precisa continuar construindo um futuro em que crescimento econômico e justiça social caminhem juntos. É esse o sentido de um Ceará que cresce porque cuida.

*Cynthia Studart Albuquerque

Assistente Social, Doutora em Serviço Social (UFRJ) e Secretária de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS) de Fortaleza.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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