“Eu não sabia se ria ou se chorava de rir. Fiquei imaginando aquele homem estourando de raiva na lavanderia de casa, encarando sua ineficiência diante de suas próprias cuecas acumuladas”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Meus passeios na praça em frente onde moro são verdadeiras aulas sobre viver. Tudo depende das conversas que acabo flagrando e do volume da voz de quem fala. De fofoca de trabalho à opinião política, de casais discutindo a pessoas reclamando de vizinhos. O caminhar sempre é acompanhado por boas doses do ouvir e refletir.
Dia desses peguei trechos de uma conversa que parecia um conto que se escrevia inteirinho à minha frente. Dois homens caminhavam tão devagar que os interessados em se exercitar tinham que contornar a calçada estreita. Ao ouvir as palavras “não lavo de jeito nenhum” e o comentário “tá certíssimo” resolvi desacelerar. Ali havia história boa.
O revoltado estava com o rosto vermelho de raiva. Desabafava com o amigo que, influenciada por amigas, a mulher avisou que não mais lavaria as cuecas dele. “Cara, por que ela quer mudar um hábito de 32 anos de casamento?”. O amigo balançava a cabeça, em sinal de apoio, como se dissesse: que absurdo!
Eu não sabia se ria ou se chorava de rir. Fiquei imaginando aquele homem estourando de raiva na lavanderia de casa, encarando sua ineficiência diante de suas próprias cuecas acumuladas. E também pensando no quanto a mulher deve ter precisado se encorajar para, depois de mais de três décadas, liberar suas mãos e unhas das cuecas de um adulto, que deveria ser capaz de cuidar de si.
Gosto de captar frases soltas de conversas para, a partir delas, imaginar rostos, personagens, trejeitos, casas, decorações, ruas… Mas o que gosto mesmo é perceber, em meio a essas conversas, que a vida vai transformando até situações que pareciam engessadas.
Um viva para a mulher que decidiu deixar as cuecas serem lavadas por quem as usa.
Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora