“E justo quando Ciro partiu na aventura presidencial, essa panelinha passou a ditar os rumos do castelo e a barrar (pelas costas) a ascensão de muita gente talentosa”, aponta o jornalista Norton Lima, Jr
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Muitos estão a amolar facas, desenferrujar espingardas, molhar balas em veneno, ajustar miras. Armam ciladas para Ciro Gomes, mas ainda não sabe, porque como ele admitiu, “nunca soube. “
Na Cabalah, in-veja interpreta-se como não-veja, porque encarar algo que brilha, cega. Ciro foi um dos homens mais invejados que conheci. Muito jovem, muito brilhante, muita beleza, muito poder.
Nem tudo que dizia ou fazia merecia aplauso. Os olhos que o poder lhe dá são os olhos que o poder lhe tira. O poder, a terceira tentação, cobra o preço do manto pesado. Exige o silêncio da solidão — algo quase impossível para um jovem que chega cedo ao poder.
Imantado, existencialista, abrindo feridas e carregando cicatrizes, Ciro atraiu o que há de melhor e de pior. Nunca estoico, nunca apolíneo, sempre dionisíaco. Deu no que deu. As sombras que seu brilho produzia montaram uma facção de bajuladores ao redor do castelo. Sob o disfarce da lealdade, não deixavam ninguém entrar. E justo quando Ciro partiu na aventura presidencial, essa panelinha passou a ditar os rumos do castelo e a barrar (pelas costas) a ascensão de muita gente talentosa. Hoje, a panelinha está em pane. O cerco de Troia virou uma nova Ilíada.
“Clássico” era o nome do barco com que os gregos enfrentavam qualquer mar aberto. Ciro não é um Sábio. É um Clássico, uma força preparada para qualquer imprevisto da natureza. Foi um homem que fez um rio. Tem a coragem de vencer. Quando virar um Sábio, saberá que travessias não se vencem, apenas se atravessam.
Ele colecionou desafetos, bateu sem filtro, cedeu a provocações, deu e tomou porrada que não merecia. Mas não por ódio, apenas porque se entregava de coração, por inteiro. Nunca frio, quente, excessivamente quente. Não erra como Hegel: não idealiza. Sabe, com uma lucidez depressiva, que não cabe dialética no ponto da dicotomia. Existe apenas a escolha, e depois o que resta dela.
Gostem ou não, Ciro avança. Sozinho, desfilando frases que hão de sobreviver no panteão dos oradores brasileiros. Contra tudo e contra todos, abre outra vez as gavetas e sublinha os fatos.
Nunca é pouco misturar Sun Tzu com Clausewitz. Quem muito brilha, cega os demais.
Norton Lima, Jr é jornalista