“Sim, já existiu cadeado de telefone” – Por Ana Márcia

Cadeados de telefone

“Na maioria das empresas, para usar o telefone era necessário explicar o motivo da ligação. O chefe avaliava o pedido e decidia conceder ou não a concessão de ser retirada a chave do cadeado”, aponta a jornalista Ana Márcia Diógenes

Confira:

Quem foi adolescente nos anos 70 e 80 possivelmente viveu muita frustração diante de um cadeado de telefone dos tempos analógicos. Os pais colocavam no aparelho para evitar que a conta telefônica viesse recheada das horas intermináveis que os filhos e filhas passavam conversando com amigos (as) e namorados (as).

No trabalho não era muito diferente. Na maioria das empresas, para usar o telefone era necessário explicar o motivo da ligação. O chefe avaliava o pedido e decidia conceder ou não a concessão de ser retirada a chave do cadeado. E ainda tinha fofoca de que os amigos do dono do poder tinham até cópia da chave.

É muito provável que os mais jovens sequer imaginem do que estou falando. O máximo de paralelo que se aproxima dos dias de hoje seria uma senha de bloqueio de acesso a uma rede social.

Mas estou me referindo a um cadeado físico, feito de metal resistente, usado para bloquear o disco onde os dedos se apoiavam em números, de 0 a 9 (só que começava pelo 1; o zero ficava depois do nove).

Do mesmo jeito que uma porta de casa tem chave, àquela época, quase todos os de classe média que possuíam linha telefônica apelavam para o cadeado. As linhas telefônicas eram caras, assim como o valor das ligações. O telefone era a única forma de conversar, fora o presencial. Não existia celular, redes sociais, WhatsApp, Meet, Zoom, direct ou qualquer um desses que nos conectam a baixo custo.

Os pais tentavam reduzir custos, do jeito que podiam. Enquanto isso, os filhos buscavam atalhos. Só sei que algum jovem iluminado descobriu que o cadeado poderia ser driblado. Bastava tirar o fone do gancho e bater com o dedo em uma das duas teclas que o sustentavam. Tinha que ser devagar, como uma pulsação, para não correr o risco de desligar. Nem sempre dava certo, mas era uma opção.

Venho organizando, há alguns meses, a mudança da minha mãe, após 50 anos de histórias em um mesmo apartamento. Encontrei três desses cadeados nas gavetas. Era o arsenal de defesa dela contra as despesas do final do mês: não deve ter sido fácil controlar a conta de telefone, com três filhos descobrindo o mundo e querendo se comunicar. Tempos analógicos da família.

Ana Márcia Diógenes é jornalista

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