“Torcida cearense e a expectativa pelo Jabuti” – Por Mirelle Costa

A coluna Cafezim com Literatura desta semana entra no clima de expectativa para o Prêmio Jabuti 2026, uma das mais importantes premiações do mercado editorial brasileiro que acontece hoje, com transmissão ao vivo pelas redes sociais da Câmara Brasileira do Livro. Para nós, cearenses, há um motivo especial para acompanhar a divulgação dos vencedores: temos representantes da nossa literatura entre os finalistas!

Os escritores Nina Rizzi e Moacir Fio estão na disputa com Diáspora não é lar e Aranha Movediça, respectivamente. Nina concorre no eixo Poesia, com a obra publicada pela editora Pallas, enquanto Moacir disputa na categoria romance de entretenimento, com o livro lançado pela editora Moinhos. Aos dois, nossa torcida e os melhores desejos de sorte!

Tive a honra de participar, como espectadora, da mediação que Nina Rizzi fez no lançamento do livro de Itamar Vieira Júnior, na Biblioteca Pública do Ceará, a BECE. Descalça e com a alma despida, a poeta recebeu o escritor quando veio à Fortaleza para o lançamento de “Coração sem Medo”, que completa a “Trilogia da terra” com as obras “Torto Arado” e “Salvar o Fogo”. Nina Rizzi iniciou a mediação fazendo referência à chacina do Curió, que completou dez anos. “A Rita Preta são todas as mulheres que lutam pela melhor vida dos seus filhos e por sua memória de verdade. Itamar, a gente tá fazendo a leitura do mundo ao ler sua obra”, desabafou, às lágrimas a pesquisadora.

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Nina Rizzi / Foto: Divulgação

Moacir Fio me contou que a indicação ao Jabuti ampliou a atenção em torno de Aranha Movediça, mas o livro já vinha conquistando leitores. Para ele, embora os prêmios tenham impacto na literatura, são os leitores que fazem um livro ganhar vida.

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“O livro tem recebido uma atenção enorme com essa indicação ao Jabuti, mas, diga-se de passagem, já vinha crescendo no boca a boca. Sabemos o impacto que os prêmios têm na literatura, mas quem faz um livro são os leitores, e tenho muito orgulho de cada crítica e resenha que recebi”, afirma o escritor.

O desejo dele vai além de uma conquista individual. Caso leve o prêmio, Moacir espera que o reconhecimento ajude a projetar outros escritores cearenses, especialmente os que trabalham com a literatura de gênero e o insólito.

“Pensando especificamente no Jabuti, espero sinceramente que esse reconhecimento traga algo para a literatura de gênero cearense. Nós temos uma grande tradição no insólito, grandes autores que, infelizmente, são pouco ou nada conhecidos fora do Ceará. Caso eu conquiste o prêmio, quero sobretudo que o reconhecimento se expanda para essas outras autorias, especialmente as novas”, completa o escritor que também está na final do Prêmio Oceanos. Nesta quarta-feira, dia 28 de outubro, às 19 horas, serão anunciados os doze finalistas que concorrem ao Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa, no Teatro YouTube, no Conjunto Nacional, em São Paulo.

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MOACIR FIO / Foto: Arquivo pessoal

Os finalistas pelos olhos de quem lê

Quem também está de olho nos livros que disputam o Jabuti é Rafael Caneca, do Instagram Pacote de Textos. Ele tem o hábito de ler os finalistas e compartilhar suas impressões, contribuindo para que mais leitores conheçam as obras e participem da conversa literária.

Entre os títulos que comenta na categoria Romance Literário, Rafael destaca Coração sem medo, de Itamar Vieira Junior, que encerra a chamada Trilogia da Terra e desloca a narrativa para a Salvador urbana. A luta pela sobrevivência, pela dignidade e por um país mais justo permanece no centro da obra. Fã declarado do escritor, Rafael considera o livro um forte candidato à vitória.

Outro destaque é Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei. Em seu comentário, Rafael chama a atenção para a maneira como a autora explora a dor, a solidão compartilhada e a reconstrução da identidade feminina, recorrendo à mistura de prosa, poesia e recursos visuais que marca sua escrita.

Rafael também destaca Meridiana, de Eliana Alves Cruz, que acompanha três gerações de uma família negra e suas experiências de desejo e ascensão social, em uma narrativa construída por diferentes vozes. Já Vez em quando, Billie Holiday, de Evandro Affonso Ferreira, aposta no fluxo de consciência e em uma escrita nada convencional, com referências a Guimarães Rosa e a outros artistas e pensadores. Sobre a experiência de leitura, Rafael admite que teve dificuldade para concluir o romance, justamente por seu estilo pouco convencional, e avalia que uma vitória seria uma surpresa.

Por fim, Dança de enganos, de Milton Hatoum, encerra a trilogia O lugar mais sombrio e revisita os impactos da ditadura militar sobre as relações familiares e os destinos individuais. Também admirador declarado de Hatoum, Rafael coloca o romance entre seus favoritos.

Ao sintetizar suas apostas para a categoria, o leitor não esconde suas preferências: “Em síntese: os candidatos mais fortes, na minha opinião, são Milton Hatoum e Itamar Vieira Junior, seguidos de perto pela Eliana Alves Cruz.”

Bibliodiversidade: quem consegue chegar aos leitores?

Nathan Matos, apresentador do podcast LiteraturaBr e editor de uma editora independente, a Moinhos, que editou a obra de Moacir Fio, também compartilha suas reflexões sobre o Jabuti. Para ele, o prêmio tem relevância não apenas pelo reconhecimento que oferece a autores, autoras e editoras, mas pela capacidade de colocar livros em evidência e ampliar o debate sobre a produção literária brasileira.

“O Prêmio Jabuti é o maior prêmio literário do mercado editorial brasileiro, não apenas pelo reconhecimento que oferece aos autores, às autoras e às editoras, mas porque possui uma capacidade de colocar determinados livros em evidência e ampliar o debate em torno da nossa produção literária”, afirma Nathan Matos.

O editor chama a atenção para a distância entre a diversidade de livros publicados no país e aquilo que costuma receber espaço na mídia tradicional, concentrada nos grandes centros. Para ele, acompanhar os finalistas também é uma oportunidade de refletir sobre quais obras conseguem alcançar os espaços de reconhecimento.

“O Brasil tem uma produção literária muito maior do que a mídia tradicional, dos grandes centros, trata de mostrar. Ainda assim, ver os finalistas de todas as categorias do Jabuti, neste ano de 2026, traz boas surpresas e esperanças em acreditar que a bibliodiversidade importa para o prêmio”, avalia.

A presença de escritores cearenses na disputa é especialmente significativa. Nathan considera importante que autores e editoras de diferentes regiões ocupem espaços de destaque nacional, ampliando o olhar sobre a produção literária brasileira.

Na Moinhos, editora responsável pela publicação de Aranha Movediça, de Moacir Fio, a proposta é construir um catálogo que dialogue com diferentes vozes e experiências literárias. Para Nathan, a indicação representa uma conquista, mas o desafio do mercado editorial vai muito além de chegar à lista de finalistas.

“É evidente que estar entre os finalistas este ano, com Aranha Movediça, de Moacir Fio, representa uma conquista, mas acredito que o grande desafio do nosso mercado editorial continua sendo encontrar leitores disponíveis para garantir que bons livros possam circular e possam ser lidos, independentemente de terem ou não sido premiados”, destaca.

Aline Bei e as ausências que atravessam gerações

Eu também tenho minhas leituras e preferências entre os finalistas. E confesso: Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei, tocou em um lugar muito particular. Sou suspeita para falar, porque histórias que envolvem família, mulheres, dor, abandono e amor estão entre minhas temáticas favoritas.

Publicado em 2025 pela Companhia das Letras, o romance aproxima três gerações de mulheres: Laura, uma pré-adolescente; sua avó, Margarida; e a bisavó, Filipa. A ausência de Glória, filha de Margarida e mãe de Laura, atravessa a casa e a vida dessas personagens, tornando-se uma presença que pesa justamente por não estar ali.

Margarida dedica a vida à neta, tentando compensar a falta da própria filha. A chegada de Filipa, por sua vez, desestabiliza o cotidiano e traz à tona ressentimentos antigos, mágoas e conflitos que atravessam a relação entre mãe e filha.

Aline Bei constrói essa história com uma escrita fragmentada, que mistura prosa, poesia e dramaturgia. Os cortes, os espaços em branco e as quebras de frases parecem acompanhar os silêncios e as feridas das personagens. A forma não está ali por acaso: ela também conta a história.

O que mais me mobiliza é pensar em como as dores podem atravessar gerações, mesmo quando ninguém sabe exatamente como falar sobre elas. Mulheres que cuidam, mulheres que partem, mulheres que ficam, mulheres que tentam fazer diferente e, às vezes, acabam repetindo gestos que também as machucaram.

Como leitora, essa é uma das questões que mais me tocaram durante a leitura. “Sou suspeita pra falar, pois tudo o que envolve família, mulheres, dor, amor mexe muito comigo. É a minha temática favorita. Avó, mãe e filha”.

É nesse encontro entre a história narrada e as nossas próprias experiências que a literatura ganha uma dimensão íntima. São perguntas que a obra deixa ecoando. E talvez seja justamente essa uma das grandes forças da literatura: ela nos coloca diante de histórias que não são nossas, mas que, de alguma maneira, reconhecemos dentro de casa, na memória e nos laços.

Bruna Dantas Lobato e as horas que nos separam

Outra leitura que quero compartilhar é Horas Azuis, romance de estreia de Bruna Dantas Lobato, publicado em 2025 pela Companhia das Letras. A autora já possui reconhecimento internacional como tradutora literária e fez história ao se tornar, em 2023, a primeira tradutora de língua portuguesa a vencer o National Book Award na categoria Literatura Traduzida, pela versão em inglês de A palavra que resta, de Stênio Gardel.

Em seu primeiro romance, Bruna acompanha uma jovem brasileira que vive como imigrante em uma universidade no estado de Vermont, nos Estados Unidos, enquanto mantém uma relação à distância com a mãe, que permaneceu no Rio Grande do Norte.

A leitura me deu vontade de dar um abraço na mãe e na filha. Talvez porque a distância, nesse livro, não seja apenas geográfica. Ela também se manifesta nos silêncios, nas pequenas cenas do cotidiano, nas tentativas de manter a intimidade quando a vida acontece em lugares diferentes.

Bruna constrói imagens que permanecem na memória. Os silêncios são muito bem explorados, assim como as texturas das cenas. Fecho os olhos e consigo visualizar o abajur azul iluminando o rosto da protagonista. Quase escuto a respiração da mãe dormindo com o notebook ligado, como se aquela conexão virtual fosse uma maneira de diminuir a distância entre as duas.

Imaginei a personagem comendo as guloseimas americanas (quase senti o gosto das geleias), aquecendo-se com seus diferentes tipos de chá e tentando encontrar um lugar para si em uma experiência de vida marcada por descobertas, escolhas e saudades.

Fiquei pensando no peso das nossas decisões, na dor e na delícia de ser quem se é. Crescer também pode significar aprender a conviver com aquilo que deixamos para trás, sem que isso represente deixar de amar quem ficou.

Em Horas Azuis, encurtar as distâncias é o grande desafio dessas duas mulheres. E não falo apenas dos quilômetros que as separam, mas de tudo aquilo que, às vezes, não conseguimos dizer nem mesmo às pessoas mais próximas.

Gostei muito da maneira como Bruna escolheu finalizar o livro. Há encerramentos que não precisam explicar tudo para nos deixar com a sensação de que alguma coisa encontrou seu lugar. Foi assim comigo: terminei a leitura ainda pensando nas personagens e na delicadeza dos vínculos que resistem às ausências.

“Me deu vontade de dar um abraço na sua mãe e em você, Bruna. Os silêncios foram muito bem explorados. As texturas das cenas. Fecho os olhos e consigo ver o abajur azul que ilumina seu rosto, posso até ouvir também a respiração da tua mãe dormindo com o notebook ligado”.

Essa é uma daquelas leituras que continuam conosco depois da última página. E talvez o maior elogio que eu possa fazer ao livro seja dizer que ele me fez sentir perto de pessoas que nunca conheci, mas cujas histórias, de alguma maneira, reconheço.

Nina Rizzi: poesia, ancestralidade e resistência

Em Diáspora não é lar, publicado pela Editora Pallas, Nina Rizzi transforma experiências pessoais em matéria poética para abordar questões que atravessam a vida de tantas pessoas negras. Com mais de duas décadas de trajetória na poesia, a escritora revisita episódios de racismo vividos da infância à vida adulta, recupera memórias do ambiente escolar e do trabalho da mãe e encontra no amor-próprio uma forma de resistência. A obra também mergulha nas possibilidades da língua portuguesa, criando, recuperando e ressignificando linguagens. A ancestralidade ganha força no chamado “pretuguês”, em uma escrita que reivindica o centro da cena literária para vozes historicamente empurradas para as margens. Para Nina, chegar à final do Jabuti representa o reconhecimento de uma caminhada que também dialoga com a presença de outras mulheres negras na literatura brasileira, como Conceição Evaristo e Gilka Machado. A indicação celebra, assim, não apenas uma obra, mas a potência de uma poesia que transforma memória em linguagem, afirmação e pertencimento.

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Que venham os vencedores e novos leitores!

O Jabuti nos oferece uma boa oportunidade para celebrar autores, editoras e livros, mas também para refletir sobre quem tem acesso à publicação, à divulgação e ao reconhecimento. A presença de Nina Rizzi e Moacir Fio entre os finalistas é motivo de alegria para a literatura cearense e reforça a importância de ampliar a circulação de nossas produções.

Que a indicação de Aranha Movediça ajude a abrir portas para a literatura de gênero produzida no Ceará. Que Diáspora não é lar encontre ainda mais leitores. E que todos os finalistas, de diferentes categorias e regiões, tenham suas obras lidas para além do anúncio dos vencedores.

E você, já leu algum dos finalistas do Jabuti 2026? Conte para o Cafezim com Literatura quais livros estão na sua torcida. Por aqui, seguimos com a expectativa, a curiosidade e aquele cafezim passado na hora, porque sempre cabe mais uma boa história na nossa mesa.

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Itamar Vieira Júnior e Nina Rizzi, em dezembro, na BECE
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