“O que mais chama a atenção não é apenas a beleza física. É a sensação de cuidado, de pertencimento e de respeito ao espaço público”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
Confira:
Viajar é uma forma de conhecer lugares, mas também de refletir sobre o país que somos e aquele que desejamos ser. Nos últimos dias, junto de minha mulher Lúcia, em visita a Vila Velha e Vitória, no Espírito Santo, vivemos mais uma vez a experiência do turismo religioso e cultural, prática que cultivamos sempre que possível. Difícil ignorar que ali vemos sinais concretos de um Brasil que dá certo.
Vila Velha e Vitória são cidades privilegiadas pela natureza. O mar, a paisagem harmoniosa e o clima agradável contribuem para o encanto imediato do visitante. Mas o que mais chama a atenção não é apenas a beleza física. É a sensação de cuidado, de pertencimento e de respeito ao espaço público.
No alto do morro onde se ergue o Convento de Nossa Senhora da Penha, um dos mais importantes centros de peregrinação do país, respira-se um ambiente de serenidade que convida à reflexão. Ali assistimos à celebração de São Boaventura, ocasião em que foram ressaltadas as virtudes intelectuais do santo franciscano. Em tempos marcados pela superficialidade e pela pressa, é reconfortante perceber que ainda existem espaços onde a fé dialoga com o conhecimento e a tradição continua a inspirar valores permanentes.
A poucos metros dali, a Praça Almirante Tamandaré oferece uma lição de urbanismo simples e eficiente. Trata-se de uma praça de verdade: ampla, aberta e destinada às pessoas. Sem a profusão de estruturas improvisadas que frequentemente descaracterizam nossos espaços públicos, o local proporciona uma agradável sensação de liberdade. As crianças brincam, as famílias convivem e os cidadãos ocupam naturalmente a cidade que lhes pertence.
A travessia entre Vila Velha e Vitória pode ser feita pela moderna ponte que une os dois municípios. No entanto, as barcas que cruzam a Enseada do Suá representam uma alternativa que vai além da utilidade prática. Há algo de poético nesse deslocamento pelo mar, lembrando que o desenvolvimento urbano não precisa eliminar a beleza nem a memória das cidades.
Em Vitória, a limpeza urbana, a conservação dos espaços públicos e a organização geral revelam uma administração comprometida com a qualidade de vida da população. Entre as muitas atrações disponíveis, preferi visitar as igrejas históricas do centro antigo. A Catedral Metropolitana, a secular Igreja de São Gonçalo e o Memorial da Cúria Metropolitana constituem um valioso patrimônio cultural e religioso, preservado com respeito e dignidade.
O que mais nos impressionou, contudo, foi a percepção de uma cidadania que parece compreender a importância da ordem, da convivência civilizada e do trabalho. Não se trata de idealizar realidades nem de ignorar os problemas que certamente também existem. Trata-se de reconhecer exemplos positivos que merecem ser observados e, quem sabe, replicados.
Vila Velha e Vitória sugerem a imagem de um Brasil possível: um país que preserva sua história, valoriza suas tradições, cuida de seus espaços coletivos e compreende que desenvolvimento econômico e elevação moral não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário, são metas que devem caminhar juntas.
Num momento em que o debate público frequentemente se concentra nas deficiências nacionais, é importante destacar experiências bem sucedidas. O Espírito Santo oferece uma delas. E talvez a principal lição dessas duas cidades seja a de que o progresso não depende apenas de grandes projetos ou discursos grandiosos. Ele começa no cuidado cotidiano com a cidade, no respeito ao patrimônio comum, na valorização da cultura e na disposição de cada cidadão para contribuir com a construção de uma sociedade melhor.
Ao deixarmos Vila Velha e Vitória, trouxemos conosco a convicção de que o Brasil que desejamos não é uma utopia distante. Em muitos lugares, ele já está sendo construído.
Barros Alves é jornalista e poeta