“A catarse por trás das togas das excelências” – Por Luiz Henrique Campos

Com o título “A catarse por trás das togas das excelências”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. “A catarse, entretanto, não pode terminar no espetáculo. Ela precisa produzir depuração, transparência, responsabilidade, limites e instituições capazes de investigar sem medo e sem favoritismo”, expõe o colunista.

Confira:

Há sessões de um tribunal que julgam processos; outras, sem que percebam, acabam julgando a própria sociedade. A sessão do STF que colocou no centro do debate o ministro Alexandre de Moraes pertence, talvez, a essa segunda categoria. Não porque tenha produzido sentença definitiva — ela sequer chegou ao mérito e acabou suspensa por pedido de vista. Mas porque, diante das câmeras, algo mais profundo parece ter vindo à superfície. Uma espécie de catarse coletiva. Catarse, que é bom lembrar, não é apenas alívio; é também dor, constrangimento e depuração. É quando aquilo que durante muito tempo foi reprimido deixa de caber debaixo do tapete.

Naquela sessão, o conflito institucional ganhou dimensão humana quase impossível de esconder. Acusações, ressentimentos, suspeitas e disputas de poder atravessaram o ritual solene das togas e das excelências, com a sociedade assistindo, perplexa, àquilo que normalmente permanece protegido pela linguagem protocolar das instituições. Talvez seja essa a verdadeira força simbólica daquele episódio. O STF apareceu não apenas como lugar de interpretação da Constituição, mas como palco das contradições de país inteiro. Um país moldado por regras morais que ensinam a esconder desejos, ambições, dinheiro, vaidades e transgressões, mas que existem envoltos nos recônditos da hipocrisia alimentada pela conserva cultural.

A família, a igreja, a respeitabilidade e a chamada “boa conduta” criam fronteiras comportamentais que todos conhecemos. Mas conhecer essas fronteiras não significa necessariamente viver dentro delas. É nesse ponto que a catarse se torna socialmente perturbadora. Porque aquilo que reprimimos individualmente também pode reaparecer coletivamente. A moral conservadora condena determinados prazeres, enquanto a vida real frequentemente os negocia em silêncio. Dinheiro, luxúria, poder, sexo, prostituição, prestígio e desejo atravessam a sociedade muito mais do que admitimos. Não são necessariamente provas de crimes ou de desvios de ninguém; são dimensões humanas que a hipocrisia social prefere não enxergar.

Por isso, o espanto provocado pela sessão talvez diga tanto sobre nós quanto sobre os ministros. Quando a liturgia institucional se rompe, enxergamos comportamentos que normalmente são cuidadosamente domesticados. A família exige respeitabilidade; a igreja prega contenção; a sociedade cobra aparência. Ao mesmo tempo, o poder oferece seus próprios prazeres, códigos e tentações. A contradição entre aquilo que se proclama e aquilo que se deseja é matéria-prima da condição humana. A catarse, entretanto, não pode terminar no espetáculo. Ela precisa produzir depuração, transparência, responsabilidade, limites e instituições capazes de investigar sem medo e sem favoritismo.

O próprio presidente do STF, Edson Fachin, advertiu que o tribunal deveria julgar fatos e questões jurídicas, e não transformar divergências em confrontos pessoais. Talvez esteja aí o sentido mais profundo daquele constrangimento público. Não se trata de escolher santos ou pecadores. Trata-se de compreender por que sociedade tão acostumada a esconder seus conflitos ficou tão chocada quando eles apareceram sob as luzes do Supremo. A sessão expôs feridas institucionais, mas também nossas próprias feridas morais. E toda catarse verdadeira cobra seu preço. Até porque, depois de enxergar o que estava escondido, já não é possível fingir que nada foi visto.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e psicólogo.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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