Com o título “O que é — e por que escondem — o celular de Vorcaro?”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. “Nesse cenário, a pergunta deixou de ser apenas “o que Vorcaro conversava com os poderosos?”. A pergunta passou a ser, quem tem medo de que todas essas conversas sejam conhecidas?”, expõe o colunista.
Confira:
Há perguntas que, em uma democracia, não podem ser tratadas como inconvenientes. Uma delas, no momento, é simples. O que há no celular de Daniel Vorcaro que tanta gente parece não querer que venha a público? O aparelho do ex-banqueiro, apreendido pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master, transformou-se no objeto mais sensível de crise que já ultrapassou os limites de investigação financeira e atingiu o próprio Supremo Tribunal Federal (STF). O problema não é apenas o conteúdo do telefone. É a disputa em torno de quem pode vê-lo, quem pode examiná-lo e, principalmente, quem decide o que os demais ministros podem conhecer.
O ministro André Mendonça, relator de parte do caso, tem resistido à disponibilização integral dos dados aos demais integrantes da Corte. Sua justificativa é que a divulgação completa poderia tumultuar o julgamento e comprometer investigações ainda em andamento. A PF, por sua vez, afirma que possui condições técnicas de fornecer cópias completas dos dados aos ministros, preservando a integridade e a cadeia de custódia das provas. Gilmar Mendes e Cristiano Zanin já defenderam justamente esse acesso integral, argumentando que não é razoável que integrantes do mesmo colegiado decidam questões tão graves tendo acesso desigual às informações. E aqui está o ponto central.
Não se trata de defender Alexandre de Moraes, André Mendonça, Daniel Vorcaro ou qualquer outro personagem envolvido nessa história. Trata-se de defender o direito de a sociedade saber se as instituições estão funcionando sem seletividade. O celular de Vorcaro pode conter apenas informações irrelevantes para determinadas investigações. Pode conter conversas que nada acrescentem ao caso. Mas também pode revelar relações, negociações, pedidos, favores e articulações que ajudem a explicar como o Banco Master conseguiu circular tão perto dos centros de poder. Por isso, esconder seletivamente informações alimenta suspeitas. E suspeitas são particularmente perigosas quando envolvem um ministro do Supremo cuja indicação ao tribunal foi patrocinada politicamente pelo então presidente Jair Bolsonaro, grupo político que defende, em tese, a liberdade de expressão e a usa da forma mais irresponsável possível, acusando a tudo a todos.
Não é legítimo afirmar, sem provas, que André Mendonça esteja protegendo antigos padrinhos políticos ou qualquer grupo ligado a Vorcaro. Mas é perfeitamente legítimo perguntar se existe algum conflito de interesses — e exigir que essa dúvida seja esclarecida por documentos, transparência e investigação independente. A pior resposta para suspeita dessa natureza é o segredo. Quanto mais se restringe o acesso ao conteúdo do telefone, maior fica a impressão de que existem informações politicamente sensíveis que alguém prefere manter fora do alcance do público. E a situação se torna ainda mais delicada porque já vieram a público mensagens envolvendo Vorcaro e integrantes do próprio Supremo, desencadeando crise interna na Corte.
Nesse cenário, a pergunta deixou de ser apenas “o que Vorcaro conversava com os poderosos?”. A pergunta passou a ser, quem tem medo de que todas essas conversas sejam conhecidas? Transparência não significa divulgar indiscriminadamente dados privados ou comprometer investigações. Significa permitir que as instituições responsáveis pela decisão tenham acesso ao conjunto necessário das provas e que eventuais restrições sejam justificadas por critérios objetivos, não por conveniências políticas. Se o conteúdo integral do aparelho nada revela de relevante, que seja examinado e que isso fique demonstrado. Se revela algo grave, que os responsáveis respondam.
O que não pode acontecer é uma situação em que fragmentos de informação são liberados enquanto o conteúdo integral permanece inacessível, justamente quando existem acusações cruzadas entre ministros e questionamentos sobre a condução do caso. O Brasil já pagou preço alto demais pela promiscuidade entre dinheiro, política e instituições públicas. O caso Master oferece ao Supremo oportunidade de provar que não existe cidadão poderoso demais para ser investigado — e que nenhum ministro é poderoso demais para ser questionado. Por isso, a pergunta continua de pé, incômoda e necessária: O que há no celular de Vorcaro? E, sobretudo, por que ainda existe tanta resistência para que todos os responsáveis por julgar esse caso possam simplesmente olhar para o conteúdo inteiro?
*Luiz Henrique Campos
Jornalista, psicólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.