Com o título “TERRABRAS Tem Espelho: O Vietnã Já Fez o Dever de Casa”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “O primeiro-ministro do Vietnã chegou a associar publicamente o desenvolvimento da indústria de terras raras à ampliação da autonomia nacional. Não é retórica de seminário. É política de Estado com nome e sobrenome”, expõe o articulista.
Confira:
No artigo “TERRABRAS: O Brasil Precisa de uma Petrobras para as Terras Raras?”, publicado em 20/jun/26, defendemos uma ideia, à primeira rabissaca, relativamente ousada: o Brasil precisa deixar de enxergar as terras raras apenas como minério e passar a tratá-las como ativo estratégico de Estado.
A pergunta que não quer calar seria: existe alguém fazendo isso?
Existe. E a resposta vem do Vietnã.
1. Vietnã 866, Brasil 0 ?
O Vietnã não tem a maior reserva de terras raras do planeta. Muito menos a dimensão territorial brasileira, nem a abundância de recursos naturais que tantas vezes usamos para explicar nosso futuro promissor.
Eles têm uma coisa que nós não temos: pressa.
Enquanto debatemos se o assunto merece um projeto de Estado ou só mais um seminário, Hanói já transformou a pauta em lei.
O decreto nº 866/QD-TTg, que orienta a exploração mineral vietnamita até 2030, exige que as mineradoras alcancem ao menos de 95% de pureza em óxidos de terras raras, com o objetivo de cessar a exportação de minério bruto e migrar para ligas metálicas e ímãs permanentes. Não é sugestão de política industrial. É decreto, com número de registro e todo o escambau burocrático.
Assim, a pergunta vietnamita não é “quanto poderemos exportar”. É “como transformar isso em indústria, tecnologia e autonomia nacional”. A diferença não é de geologia. É de vontade política convertida em lei.
É uma diferença pequena na gramática. Gigantesca na economia.
2. Os Pilares de Uma Estratégia Que Não Pede Licença
A receita vietnamita é, portanto, direta, quase grosseira de tão óbvia: proibir a exportação de minério bruto, apertar o cerco sobre produtos pouco processados, e empurrar o investidor, por lei, quando a vontade própria não basta, a refinar dentro de casa. Ou seja, o governo vietnamita deixou claro que terras raras não seriam tratadas como mais uma commodity.
O plano não termina na mina. A ambição declarada é virar o segundo maior fornecedor global de elementos de terras raras até o fim da década. As reservas vietnamitas somam cerca de 22 milhões de toneladas, concentradas nas províncias de Lai Châu e Lào Cai.
O Vietnã não está vendendo minério. Está vendendo o que se faz com ele depois.
Essa estratégia dialoga com a política internacional conhecida como China Plus One, pela qual grandes empresas procuram diversificar suas cadeias produtivas sem abandonar totalmente a China.
O Vietnã percebeu cedo essa oportunidade e decidiu disputar justamente a etapa de maior valor agregado dessa nova reorganização industrial mundial. Vale lembrar que este B de BRICS é Brasil e o C … todos sabem.
Essa é a “fome com vontade de comer” proposta na ideia de termos uma TERRABRAS, uma estatal híbrida, capital público majoritário, gestão técnica blindada de ciclo eleitoral, mandato de processar e refinar terra rara em casa, não só extrair.
3. Minério Exportado É Emprego Exportado
Há uma frase que resume o raciocínio vietnamita melhor do que qualquer comunicado oficial: quem exporta minério exporta emprego; quem exporta tecnologia exporta riqueza.
O primeiro-ministro do Vietnã chegou a associar publicamente o desenvolvimento da indústria de terras raras à ampliação da autonomia nacional. Não é retórica de seminário. É política de Estado com nome e sobrenome.
E também não é fechamento de fronteira. O Vietnã recebe capital japonês, americano, sul-coreano, australiano… sem rodeios. Só que negocia acesso ao patrimônio mineral em troca de investimento industrial, tecnologia e formação de capacidade produtiva local. Não vende minério. Negocia desenvolvimento.
As projeções econômicas refletem essa aposta. Estudos citados pela Vietnam Investment Review estimam que, se o cronograma de investimentos em plantas hidrometalúrgicas for cumprido, a cadeia de terras raras poderá responder por entre 5% a 10% do PIB industrial vietnamita até 2030. O foco não está na mina, mas na riqueza criada depois dela.
4. O Espelho. Sem Vaidade
O Vietnã está tentando fazer com terras raras o que vários países fizeram com petróleo no século passado: transformar vantagem geológica em capacidade industrial e poder estratégico.
A tabela, a seguir, não é muito bacana com o Brasil. Mas é precisa.
A comparação não é original. O movimento vietnamita ecoa a transição que a Coreia do Sul fez nos anos 1990, saindo da exportação de commodities para a manufatura de precisão. Por exemplo, o Hyundai, um “carro peba” de consumo interno que virou uma “limosine de exportação”, graças a “viúva coreana”.
5. Diversificar Sem Se Entregar ao Primeiro
Quando se fala em inovar, ouve-se sempre a lenga-lenga recorrente: “o Brasil não conseguiria fazer isso.”
O caso vietnamita mostra o contrário, não porque o Vietnã seja cópia possível do Brasil, mas porque prova que países que não lideram a economia mundial podem construir política industrial para minerais estratégicos quando existe continuidade institucional.
Tem uma esperteza extra no jogo vietnamita: corteja todos ao mesmo tempo, sem se amancebar com nenhum. Usa a disputa entre potências como dote, trocando acesso ao território por tecnologia e mercado.
O Brasil sabe fazer isso. Ou sabia. O não-alinhamento pragmático já foi marca da nossa diplomacia. Hoje, na corrida pelas terras raras, corremos o risco de aceitar o primeiro comprador que aparecer, como se gratidão por capital estrangeiro fosse política externa. Isso acontece também com a chegada de datacenters de IA no Brasil, sem planejamento e transparência. É um pouco do que chamamos de entusiasmo do colonizado no livro Soberania Digital, Colonialismo e Letramento (disponível em maurooliveira.blog).
Temos o minério. Temos Petrobras e Embraer como prova de que já soubemos fazer diferente. Temos urnas eletrônicas, agora, o PIX “pra chamar de nosso” … que se tornou um caso internacional incomodando cachorro grande… digo, cartões grandes!
Que Falta Não Está no Subsolo. Precisamos de decisão política de Estado.
O subsolo brasileiro continua rico. O tempo, não.
O Vietnã não inventou nada que o Brasil não pudesse ter feito. Só que fez antes.
A pergunta não é mais se o Brasil é capaz de uma TERRABRAS.
É quantas vezes mais alguém vai precisar nos mostrar o caminho.
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.