Categorias: Artigo

Ciro Gomes: os fatos que os adversários não conseguem apagar” – Por João Arruda

João Arruda é sociólogo e professor aposentado da UFC. Foto: Arquivo Pessoal

“Trata-se de uma estratégia retórica previsível: substituir a análise dos fatos pela desqualificação pessoal do adversário”, aponta o sociólogo João Arruda

Confira:

Acabei de ler o artigo do jornalista Francisco Bezerra, intitulado “Ciro Gomes coloca o fígado no lugar do cérebro“, e confesso que fiquei perplexo com o seu conteúdo. Sob uma aparência de erudição, o texto revela uma sucessão de ataques simplistas, ressentidos e desprovidos de qualquer análise política consistente. Na tentativa de conferir credibilidade às suas agressivas e desconexas aleivosias contra Ciro Gomes, o articulista recorre a um longo e desnecessário desfile histórico-literário, exibindo uma erudição ornamental que pouco acrescenta ao debate. Em vez de argumentos, oferece citações; em vez de reflexão, despeja ressentimento.

Logo na abertura, invoca a autoridade moral de Ulysses Guimarães e sua conhecida advertência de que “não se faz política com o fígado”. A partir dessa frase, passa a construir uma caricatura de Ciro Gomes, atribuindo-lhe, de forma leviana, uma coleção de defeitos: ressentimento, raiva, ódio, mágoa, pavio curto, arrogância, destempero, bravatas e inveja. Trata-se de uma estratégia retórica previsível: substituir a análise dos fatos pela desqualificação pessoal do adversário.

Na tentativa de conferir um verniz intelectual às suas acusações, o autor prossegue desfilando referências literárias e históricas como se a simples citação de grandes nomes fosse suficiente para validar seus juízos. Recorre a Dante Alighieri para insinuar que Ciro seria incapaz de suportar a felicidade e o sucesso alheios; invoca Caim, Shakespeare, Herman Melville, Zuenir Ventura, Oscar Wilde, o Livro dos Provérbios e diversos outros autores para sustentar a tese de que a inveja seria o traço dominante da personalidade do ex-ministro. O excesso de referências, entretanto, apenas evidencia a fragilidade do argumento central: quando faltam provas consistentes, multiplicam-se as citações na esperança de que o prestígio dos autores substitua a força da demonstração.

Esse artigo, Francisco Bezerra, diz muito mais sobre o seu autor do que sobre Ciro Gomes. Ao longo de todo o texto, a impressão que fica é a de que o objetivo jamais foi promover um debate político sério, mas construir uma peça de desqualificação pessoal, recorrendo a adjetivações, insinuações e analogias literárias para substituir aquilo que deveria ser o essencial: argumentos sustentados por fatos. Vem à memória um conhecido bordão da política: “Acuse o adversário daquilo que você faz; atribua a ele os defeitos que você próprio revela.” É exatamente essa a sensação transmitida pelo seu artigo.

Acompanho a trajetória política de Ciro Gomes desde janeiro de 1989, quando assumiu a Prefeitura de Fortaleza, sucedendo Maria Luiza Fontenele. Encontrou uma administração mergulhada em grave crise financeira e administrativa, mas, em apenas quinze meses de governo, promoveu uma ampla reorganização fiscal, saneou as contas públicas, eliminou o déficit municipal, regularizou o pagamento dos mais de vinte mil servidores e restabeleceu o funcionamento dos serviços essenciais de limpeza urbana, manutenção viária, saúde e educação. Ao renunciar ao cargo para disputar o Governo do Ceará, deixou a Prefeitura com um dos mais elevados índices de aprovação do país. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo à época, alcançou 77% de avaliação “ótimo/bom”, tornando-se o prefeito de capital mais bem avaliado do Brasil.

Eleito governador do Ceará, Ciro Gomes administrou o Estado de 15 de março de 1991 a 6 de setembro de 1994, quando deixou o cargo para assumir o Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco, durante a fase decisiva de implantação do Plano Real. Sua administração deu continuidade ao chamado “Governo das Mudanças”, iniciado por Tasso Jereissati, preservando o compromisso com o equilíbrio fiscal, a modernização administrativa e a valorização da competência técnica na gestão pública.

Durante seu governo, aprofundou a reforma administrativa, reduziu o tamanho da máquina pública, intensificou o combate à sonegação fiscal, ampliou a arrecadação estadual e implantou políticas de incentivo às micro e pequenas empresas. Também promoveu uma profunda reestruturação das secretarias estaduais, priorizando critérios técnicos em detrimento de indicações meramente políticas. Como resultado, a participação do Ceará no Produto Interno Bruto nacional passou de 1,65% para 1,72%, refletindo um período de crescimento econômico acima da média.

Sua gestão foi submetida a um dos maiores desafios da história recente do Ceará: as severas secas de 1991, 1992 e 1993, que colocaram em risco o abastecimento de água da Região Metropolitana de Fortaleza. Diante desse cenário, o governo construiu, em apenas três meses, o Canal do Trabalhador, com cerca de 120 quilômetros de extensão, obra que se tornou um marco da engenharia cearense e foi decisiva para evitar o colapso no abastecimento da capital e de municípios vizinhos. Na área social, o governo também registrou resultados expressivos, entre eles a redução de 32% da mortalidade infantil e a implantação do Programa Viva Criança, reconhecido internacionalmente ao receber o Prêmio Maurice Pate, concedido pela UNICEF.

Como já havia ocorrido durante sua passagem pela Prefeitura de Fortaleza, Ciro Gomes também se destacou nacionalmente pela aprovação de sua administração estadual. As sucessivas pesquisas do Datafolha o apontaram como o governador mais bem avaliado do Brasil, alcançando 74% de aprovação em julho de 1992. Ao deixar o governo, recusou a pensão vitalícia destinada aos ex-governadores, da mesma forma que já havia recusado a pensão de ex-prefeito de Fortaleza. Foi um gesto raro na política brasileira, que permanece como símbolo de coerência entre discurso e prática.

Foi justamente o reconhecimento obtido à frente do Governo do Ceará que projetou Ciro Gomes para o cenário nacional. Em 1994, foi convidado pelo presidente Itamar Franco para assumir o Ministério da Fazenda em um dos momentos mais delicados da economia brasileira, durante a fase decisiva de consolidação do Plano Real. A escolha não ocorreu por acaso, mas em razão da credibilidade administrativa conquistada no exercício da vida pública.

Esse breve retrospecto evidencia apenas parte da trajetória político-administrativa de Ciro Gomes. Como qualquer homem público, está sujeito a críticas e possui qualidades e limitações. Entretanto, sua biografia não pode ser reduzida a adjetivos ou caricaturas, muito menos a interpretações movidas por ataques pessoais. O julgamento de um líder político deve repousar, antes de tudo, sobre suas realizações, sua capacidade administrativa e os resultados concretos que entregou à sociedade.

É por esse conjunto de realizações, amplamente conhecido pelos cearenses, que Ciro Gomes volta a ocupar posição de destaque no debate político estadual e, pelos resultados das pesquisas, Ciro deverá ser eleito governador do Estado ainda no primeiro Turno.

O Ceará precisa de um debate político à altura de sua história e de seus desafios. Divergências são naturais e fazem parte da democracia; o que empobrece a vida pública é a substituição da discussão de ideias por ataques pessoais, insinuações e desqualificações. O eleitor cearense merece comparar propostas, trajetórias e resultados, formando seu juízo com base em fatos, e não em ressentimentos ou panfletos travestidos de análise intelectual.

O Ceará necessita retomar a linha do desenvolvimento econômico e social. Chega de atraso, de corrupção e de violência e do lulopetismo.

João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da UFC

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

Esse website utiliza cookies.

Leia mais